A beleza, a autoestima e a cadeira de rodas

A beleza, a autoestima e a cadeira de rodas

A pessoa com deficiência pode ser bonita, charmosa – ou não. Acredite: não é a cadeira de rodas que vai determinar isso. (Na foto, retirada do Google, Chantal Petitclerc, atleta paralímpica)

 

Estar na cadeira de rodas é motivo para não se sentir bonit@, elegante, charmos@ ou desejável?

A verdade é que não precisa ser.

Embora o sentimento de não ser mais a mesma, que invade a pessoa quando adquire uma deficiência; apesar da sensação de desconcerto, de estar fora dos padrões, de ter perdido a identidade… o fato é que tudo isso passa. Toda pessoa tem a condição de se reconstruir; a autoestima é recuperável e pode até mesmo sair fortalecida. E o indivíduo pode se descobrir bonito e desejável com seu novo corpo, suas órteses ou próteses ou sua cadeira de rodas.

Que bom que a vida é assim. Tudo se regenera. Tudo se transforma.

E é assim que este blog também se transforma e inaugura uma nova coluna: Cuidados Pessoais. Aqui se pretende falar de saúde e beleza: postura, elegância, força, flexibilidade, moda, cabelo, pele e muito mais.

A autoestima de uma pessoa está bastante vinculada ao fato de ela se sentir bem com sua aparência. Quem está fora dos padrões impostos pela sociedade de consumo costuma encontrar dificuldades até mesmo para adquirir uma peça de vestuário, como é o caso, por exemplo, das pessoas muito pequenas ou das obesas. Felizmente, esse padrão tem sido cada vez mais questionado, e é bom que isso ocorra, porque a beleza é diversa. Contudo, queiramos ou não, a realidade é que muitas pessoas com deficiência sofrem por não estar de acordo com os padrões.

Pensando nisso, a Cadeira acha útil propor reflexões a respeito, mas não só. Este blog quer também auxiliar pessoas com deficiência a reconhecer e valorizar a própria beleza.

Para iniciar nossa conversa sobre esse assunto gostoso, mas complexo, e até controvertido, entrevistei a psicóloga Alcione Albuquerque. Vamos conferir o que ela tem a dizer?

 

Entrevista | Alcione Albuquerque


 

Cadeira Voadora | Beleza é futilidade?

A beleza, a autoestima e a cadeira de rodas

Alcione é psicóloga clínica e professora de ética profissional

Alcione Albuquerque | De acordo com Luigi Giussani, filosofo contemporâneo italiano, “podemos passar um dia sem pão, mas nenhum dia sem a beleza”. Donde se conclui pela não futilidade da beleza.

Em torno de nós a natureza é um canto à beleza. A profusão do belo é tamanha que passamos a não vê-lo, por não valorizá-lo, dada sua “naturalidade”. O belo, então, é natural. Combina com harmonia, com nosso conceito do que seja bom.

Aqui, o bom e o belo fazem parceria em nosso psiquismo, tanto que somos passíveis de cair em armadilhas “belas”, reduzindo o conceito apenas à aparência e ignorando a essência. De fato, o essencial é o belo, mas o belo-bom.

 

Podemos viver melhor se dermos atenção à beleza, assim como damos à saúde, por exemplo?

O cuidar da beleza em sua forma equilibrada – quer dizer, não viver para isso, mas tirar proveito disso – sem dúvida é saudável e contribui para o bem-estar geral do organismo dos indivíduos.

Mesmo quem nasceu portador da beleza in natura, se não se cuidar, perde o brilho.

Aqui podemos falar – por que não? – de uma beleza “higiênica”. Cabelos brilhantes soltos ao vento, com um leve perfume, dependeram de um bom banho! Um lindo sorriso com dentes cariados ou mal escovados não convencem…

Para que o resultado favorável exista, temos que valorizar o cuidado pessoal.

 

“Quem não se enfeita, por si se enjeita”, como diziam nossas avós?

O enfeite, aqui, se apenas sinônimo de ornamento, não terá grande valor. Vovó de fato dizia: “Por fora está um luxo só; por dentro está que dá dó!”. Mas, se o tomarmos como sinal de contemporaneidade, de “estarmos plugados”, transforma-se em signo de cultura e revela o nível cultural de seu portador. O enfeitar-se depende de uma grande coerência entre o quem sou, onde estou e aonde vou.

Gosto de metaforizar de forma bem extremada quando o tema é este. Imaginemos alguém convidado a um piquenique comparecendo em trajes de gala, vestido cauda de sereia, smoking… ou, ao contrário, alguém num baile de gala, de bermudas e chinelão!

Entenderam, não? Enfeites são o toque final do seu cuidado consigo; portanto, vamos usar a regra da haute couture: com menos é melhor. Então, enfeite-se apenas para dar destaque ao que você já tem de melhor. E ponto. Nada de incorporar o personagem da árvore de Natal… rsrs Você que é belo e gosta de si não precisa disso.

 

É verdade que quanto mais eu me amo, mais eu me cuido?

Claro! Quanto mais eu me amo, mais me cuido! Amar é cuidar. Quem ama cuida. Comece por você, pelos que estão a sua volta. Seu ambiente. Sua casa. O planeta.

Meses atrás fui chamada para prestar uma sessão de terapia a uma pessoa que estava hospitalizada, em estado grave. Quando lá cheguei, encontrei uma doente suja, num quarto sujo, com péssima aparência. E num hospital conceituado.

A favor da equipe de limpeza do estabelecimento, o que eu soube após me informar é que a paciente, além de mal fisicamente, mostrava-se mal-humorada , “expulsando” a todos que tentavam se aproximar do seu quarto, inclusive a equipe de limpeza. Suspiraram aliviados ao saber que “a psicóloga chegou”!

Enfim, depois de conversar com ela, vi que teve lá as suas razões… O fato que interessa aqui é que, entre outros procedimentos, pedi a ela que chamasse uma amiga que pudesse banhá-la, trocá-la, e, após limpar o quarto, trouxesse alguns elementos embelezadores para aquele ambiente. Ela me confessou um grande amor por uma coleção de almofadas que tinha em casa, resultado de suas muitas viagens. Em resumo, voltando na semana seguinte encontrei um ser humano muito mais dignificado e com mais predisposição para o enfrentamento de sua grave doença. (A propósito, ela já voltou para casa, ainda doente, porém melhorada para o que há de vir.)

 

A cadeira de rodas, em sua opinião, é um empecilho para a beleza?

Não, a cadeira de rodas não é um empecilho, senão estaríamos aqui invertendo valores. A cadeira não é mais importante do que o indivíduo que dela se serve. Quem está ali assentado é uma pessoa, bela, culta, cuidada , cheia de autoestima, ou não. Não será a cadeira que irá determinar isto.

 

A beleza, a autoestima e a cadeira de rodas

A entrevistada | Alcione, nascida nos anos 50 em BH, é psicóloga especialista clínica há mais de 30 anos. E adora isso. O ser humano para ela é uma história fascinante, a ser desvendada e aprimorada para tornar-se finalmente pessoa, de posse de seu potencial para ser feliz, fazer feliz e mudar para melhor o ambiente onde vive. É também professora de Ética Profissional e mãe de muitos filhos e muitos mais netos.

Recentemente viveu algum tempo na cidade de Marselha, no sul da França, não interrompendo sua atuação clínica. Para tanto, habilitou-se para proceder aos atendimentos online, o que mantém até hoje, atendendo tanto presencialmente quanto virtualmente (para saber mais, clique aqui e visite o site dela)

Viveu com uma pessoa em cadeira de rodas, sua mãe, já falecida. Como era filha única, teve muito a aprender nessa convivência.

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6 Comments

  1. Estou adorando tudo, tem como colocar umas carinhas de emotions pra gente expressar melhor?

  2. Adorei o blog! Um plantio, um caminho benfazejo que nos concita a ver o belo que existe em nós. Você é uma pregoeira do bem, o próprio exemplo de beleza em que nos devemos espelhar.
    Beijos da Genaura Tormin

  3. Laurinha, juro que já tentei deixar comentários (isso faz algum tempo, no tempo do blog), mas nunca acertava. Adorei esta entrevista! Que pessoa bacana é a Alcione… e vc, ótimas perguntas. Parabéns! bj

    • Oi, Selma, obrigada pela visita!

      Parece que está mais fácil deixar comentários agora, com esta nova plataforma. Que bom!

      Eu também adorei a entrevista da Alcione. Ela vai gostar de saber que vc também gostou.

      Beijo grande!

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