O corpo fora dos padrões e a beleza que o amor revela

 

Convidei a querida Fatine, uma pessoa perspicaz e antenada, a fazer uma reflexão sobre a beleza da pessoa que tem o corpo fora dos padrões. E ela produziu um texto super sensível, inteligente e profundo. Leia!

 

Fatine gosta de cores, e elas vão parar até no seu cabelo. Nada de tédio na vida desta moça!

Fatine gosta de cores, e elas vão parar até no seu cabelo. Nada de tédio na vida desta moça!

 

 

Por Fatine Oliveira*

 

Há dias em que o universo resolve nos testar. O cabelo amanhece rebelde, a pele fica mais oleosa que o normal, o corpo apresenta novas dores e o espelho acaba se tornando um inimigo. Podemos disfarçar uma olheira com um corretivo novo ou seguir aquele complicado tutorial de maquiagem cheio de contornos e pincéis que ficamos sem saber por onde começar. Tantos truques e dicas para melhorar a imagem que vemos, porém nenhum deles é  capaz de mudar o que pensamos de nós.

Um dos maiores desafios de uma pessoa com deficiência é lidar com o olhar do outro, uma vez que a sociedade ainda tem dificuldades para conviver com o diferente. O resultado desse comportamento social é o que chamamos de capacitismo e se reflete na identidade daquele que possui a deficiência, pois, tendo um corpo fora dos padrões, não consegue encontrar alguém que o represente, que possa compreender suas necessidades e anseios. Torna-se um indivíduo a margem.

 

Charme e beleza por fora e por dentro.

Charme e beleza por fora e por dentro.

 

Para a mulher com deficiência, o capacitismo soma-se ao machismo, fazendo com que seu processo de autoimagem seja comprometido não somente por ter deficiência, mas por não ser considerada uma mulher completa, “capaz de fazer tudo aquilo que a sociedade espera de uma mulher”, ou seja: casar, ter filhos, cuidar da casa, família e por aí vai.

Com esse cenário, vamos construindo uma autoestima fragilizada, repleta de dúvidas e inseguranças. Criamos crenças que limitam nossos passos e sonhos. Formamos um olhar tão turvo quanto o daqueles que nos cercam.

Por muito tempo, considerei que era preciso mudar meu cabelo, fazer uma boa maquiagem, comprar as melhores roupas e manter-me sexualmente ativa para sentir que sou bonita e desejável. Entretanto, nada disso resolveu. A maquiagem borrava quando a tristeza transbordava, as roupas cobriam a pele, mas não tapavam a minha vergonha com o meu corpo, e o sexo deixou de fazer graça quando o coração notou a falta de amor no outro e, principalmente, em mim.

 

Não abrir mão dos gostos pessoais por causa do corpo fora dos padrões, mas buscar sempre se sentir bem.

Não abrir mão dos gostos pessoais e do estilo por causa do corpo fora dos padrões, mas buscar sempre se sentir bem e bela.

 

Vi que buscava minha felicidade sempre fora de mim, evitava o confronto inevitável e necessário comigo. Assim, com auxílio da terapia comecei a destravar e compreender melhor meus pensamentos. Desse modo, compreendi que a beleza estava em me sentir bem comigo, afinal.

Ainda mudo meus cabelos, me permito essa singela mudança, rs. Gosto de cores e gostaria de usar todas elas, se possível. Hoje visto o que me deixa bem, porém não dispenso um dia de descanso e abuso do moleton. Não sinto falta de ter alguém para me sentir desejável, pois sei que sou capaz de causar esse efeito mesmo sem perceber. Aliás, todos somos desejáveis ao outro quando este nos quer (já pensou nisso? 😉 ).

Por esse motivo, sempre falo (e pareço uma palestrante motivacional neste sentido): a realidade é que a beleza está em nós. Observei o quanto pessoas com beleza padrão possuem uma autoimagem deslocada, como não conseguiam ficar em paz com seus corpos e vi que não se tratava apenas de “dar um jeito na cara”, mas de se compreender como uma pessoa capaz e com condições de viver bem consigo.

Não é fácil, bem sei, alcançar este nível de entendimento. Há diversos estilos e uma sociedade dizendo em uníssono quanto somos menores por causa de nossa deficiência. Neste momento só posso dizer que é necessário reforçar sua cadeira/prótese, polir sua armadura e preparar-se para o combate, pois esta é a nossa luta. Ter deficiência é viver na resistência.

Entretanto, não precisamos nos endurecer. A vida tem tantas nuances lindas, pessoas incríveis esperando para fazer parte de nossa jornada, lugares para nos inspirar e dias para tornarmos nosso sonhos realidade. É esta esperança pelo amanhã melhor que nos motiva a continuar sempre.

 

Fatine 2*Fatine Oliveira é publicitária, sócia da empresa As Duas Comunicação e designer do Programa de Comunicação Científica, Tecnológica e de Inovação (PCCT) da Fapemig.

É autora do blog e canal Disbuga, voltado para assuntos relacionados a pessoas com deficiência.

Nas horas vagas, procura alimentar seus vícios por café, seriados, filmes e Star Wars (não necessariamente nessa ordem). É uma pessoa bem-humorada, amorosa e conserva um olhar agudo para examinar todas as coisas.

 

 

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2 Comments

  1. Edileuza Ferreida

    Perfeito . O texto retrata com riqueza de detalhes exatamente como vencemos diariamente o olhar do ‘ normal ‘

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