Café com Fatine | É na troca de experiências que se inicia o respeito

 

 

A coluna Café com Fatine é um espaço para um bate-papo descontraído sobre o universo da pessoa com deficiência. Aqui, a gente não quer convencer ninguém de nada, não tem a intenção de dizer “verdades”. Chegue junto! Vem papear conosco, enquanto toma um café? Estaremos aqui quinzenalmente, às quartas-feiras!

 

Por Fatine Oliveira

 

Quando era adolescente costumava usar um livrinho com reflexões sobre a vida, muito comum na época, por sinal. Eram pílulas que não poderiam ser lidas de maneira linear; eram para ser consultadas em momentos de dúvida. Se algo incomodava seu coração, bastava fechar os olhos e abrir o livro em qualquer página. A mensagem era separada pelo “universo” e trazia a resposta que precisávamos. Bom, na maioria das vezes. Havia momentos em que, não satisfeita, fechava os olhos e tentava outra mensagem que soasse mais agradável para o meu desejo.

Os tempos mudaram, e hoje não usamos mais esses livrinhos (pelo menos não na frequência de antes), mas recorremos a outras páginas. Às virtuais recheadas de mensagens de autoajuda que costumam aparecer em nossas timelines. Nossa rede de contatos se expandiu, e o universo agora encontra-se no outro.

 

Mais informação, menos conhecimento

 

São inúmeras frases, vídeos e imagens com pensamentos reflexivos que constantemente são compartilhados, curtidos e comentados todos os dias. Tamanha sabedoria poderia nos tornar muito mais tolerantes e pacientes, contudo o resultado é o contrário. Quanto mais informação, menos conseguimos absorver.

Na época do meu livrinho de pensamentos, sempre parava e refletia sobre a mensagem lida. Havia uma espécie de ritual naquele momento, algo de especial nas palavras que facilitava seu entendimento. Esse fator diferenciador podemos chamar de tempo.

Não é possível construir um saber sem o tempo. É tal como uma plantação. Preparamos o solo, colocamos a semente e diariamente cuidamos para que ela receba todos os elementos essenciais ao desenvolvimento da planta.

Do mesmo modo, quando aprendemos algo ou oferecemos o aprendizado ao outro.

 

“Não é possível construir um saber sem o tempo”

 

O tempo do outro

 

Venho observando há um tempo como é importante compreender as consequências das experiências de vida do outro. Ninguém é uma página em branco, todos temos personalidades, histórias que conduzem nossa forma de agir e pensar.

Muitas vezes podemos ser o universo de alguém trazendo respostas para seus questionamentos; contudo, também as recebemos. Existe uma troca muito rica nas experiências. Por exemplo, quando me proponho a responder dúvidas sobre pessoas com deficiência, não sou apenas autora daquele conhecimento, mas posso também compreender as razões que levaram (e levam) tantos a se equivocarem sobre nós.

A vida com deficiência durante muitos anos se construiu em cima de diagnósticos médicos e objetos para locomoção, criando na mente da maioria das pessoas uma espécie de crença. Para muitos, ter deficiência é ser exemplo ou ser incapaz; por esse motivo é comum ouvirmos os maiores absurdos ditos de maneira inocente como se carregassem alguma verdade.

 

É possível fazer o outro mudar de ideia?

 

O psicanalista Contardo Calligaris, em sua coluna na Folha de S.Paulo, diz: “Abandonar uma crença, por mais que ela se revele errada, é dificílimo. Talvez os argumentos apresentados sejam sempre insuficientes. Mas o mais provável é que a gente seja fundamentalmente impermeável a argumentos racionais, sobretudo na hora de criticar nossas próprias crenças”.

Às vezes iremos oferecer respostas que o outro não está preparado para ouvir, ou talvez tenhamos as mesmas dúvidas que ele apresentou. Porém, e se tentarmos entender o argumento do outro ao invés de “mudar a página” da mensagem ou confrontá-lo? Parar para ouvir em silêncio* é o princípio do entendimento.

Quando estiver nas redes sociais, não responda de imediato. Pense alguns minutos, avalie o que foi dito e veja se realmente há necessidade de dizer alguma coisa. Muitas vezes o que o outro diz já nos dá uma boa dimensão de quem ele é. Entretanto, se resolver responder, seja educado, especialmente se a pessoa tiver dúvidas sobre deficiência. É na troca de experiências que se inicia o respeito.

*Silêncio aqui seria estar calado/não escrever nada, e não necessariamente estar em algum local silencioso.

 

Fatine Oliveira

é publicitária e autora do blog/canal Disbuga, onde apresenta de forma reflexiva (e algumas vezes sarcástica) diversos temas sobre a vida da pessoa com deficiência. Atualmente faz parte do Afetos: grupo de pesquisa em comunicação, acessibilidade e vulnerabilidades, na UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais).

Tem 30 e alguns anos (mas não precisa espalhar!), adora café, seriados, quadrinhos e uma boa conversa no boteco. 😀

Contato: disbuga@gmail.com

 

 

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2 Comments

  1. Sim, sem ouvir o outro não há como construir conhecimento e, muito menos, fazer com que o outro receba uma nova oportunidade de olhar por um outro ângulo a questão da PcD.
    Você tem razão, não dá para simplesmente mudar a página e encontrar uma mensagem mais agradável. Isso é fingir que o resto não existe e se trancar numa bolha.

  2. FERNANDA VICARI DOS SANTOS

    que bom que estarás quinzenalmente nos preenchendo o coração com essa tua leveza e sensatez em perceber a vida! beijos pivetinha de meu core!!!

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