A Paralimpíada Rio 2016 e a capacidade de superar desafios

 

A Paralimpíada Rio 2016 me deixou uma certeza: um mundo melhor é possível. Mas depende de esforço coletivo.

 

Estou em frente à Arena Olímpica 3, para assistir ao jogo de bocha. Estou vestida com a camisa que contém a logo da Paralimpíada e com bandana com as cores da bandeira brasileira.

Estou em frente à Arena Olímpica 3, para assistir ao jogo de bocha. Estou “paramentada” com camisa que exibe os símbolos da  Olimpíada e da Paralimpíada e com bandana com as cores da bandeira brasileira. (Todas as fotos pertencem ao meu acervo, exceto quando indicado)

 

Por Laura Martins

 

Não, não vou tratar aqui do esforço e do “show de superação” dos atletas paralímpicos, mas do esforço da sociedade para superar desafios e construir uma cidade inclusiva, onde todos são bem-vindos. Como li na edição impressa do caderno especial do jornal O Globo, que saiu no dia 23/9, os jogos colocaram “o tema acessibilidade na pauta de transformações da cidade”.

Desde o dia 7 de setembro, data da Cerimônia de Abertura da Paralimpíada, tenho lido a respeito do grande evento esportivo sediado pelo Brasil. Observo muita emoção, incontida alegria e alguma indignação por situações que não saíram do jeito que algumas pessoas esperavam.

Sim, houve falhas, como não haveria? E elas vão desde a forma como setores da mídia trataram o esporte paralímpico até a negligência em relação a itens de acessibilidade. Mas não quero deixar que essas situações embacem minha visão do evento como a demonstração de que um mundo melhor é possível.

O Rio se transformou para atender a exigências do comitê paralímpico, promovendo reestruturações com vistas à acessibilidade. O transporte público, por exemplo, sofreu grandes intervenções. E pude perceber que até mesmo a visão das pessoas já mostrava algo novo, afinal interagir com tanta gente “diferente” só poderia mesmo incitar um novo olhar. Toda interação provoca mudanças. E eram muitos os indivíduos com deficiência transitando por todos os lados: nos hotéis, restaurantes, no metrô, nas ruas, em todo lugar.

 

Maracanã lotado, com uma explosão de cores, na Cerimônia de Abertura da Paralimpíada

Maracanã lotado, com uma explosão de cores, na Cerimônia de Abertura da Paralimpíada Rio 2016

 

Maracanã lotado, com uma explosão de cores, na Cerimônia de Abertura da Paralimpíada

Explosão de cores na Cerimônia de Abertura da Paralimpíada

 

Delegação brasileira foi ovacionada ao entrar no estádio. Impossível esquecer a energia dessa vibração do público!

Delegação brasileira foi ovacionada ao entrar no estádio. Impossível esquecer a energia  produzida por essa vibração!

 

Chuva de papéis picados ao final da cerimônia

Chuva de papéis picados ao final da cerimônia de abertura da Rio 2016

 

Uma honra assistir à Cerimônia de Abertura no camarote da Embratur e aprender tanto sobre a promoção do turismo no país. Do meu lado direito, a querida Sandra, ativista dos direitos da pessoa com deficiência de Salvador. Estou na frente de Vinicius Lummertz, presidente da Embratur.

Uma honra assistir à Cerimônia de Abertura no camarote da Embratur e aprender tanto sobre a promoção do turismo no país.

 

Com o presidente da Embratur, Vinicius Lummertz.

 

Emoção

 

Não foi possível conter a emoção de “trombar” com tantos iguais a mim pelas ruas. Eu tive uma mielite numa época (início da década de 1970) em que encontrar pessoas com deficiência nas ruas era raro. Elas costumavam ser trancafiadas em casa. Comecei a trabalhar fora no tempo em que a palavra acessibilidade era uma ilustre desconhecida.

Nas minhas fantasias mais ambiciosas quando adolescente, jamais poderia imaginar pessoas com deficiências severas competindo num evento internacional, e muito menos uma cidade sofrendo intervenções estruturais a fim de se tornar apta a receber esse público tão diversificado. Sim, o Rio ficou menos deficiente durante a Paralimpíada.

É o paraíso na Terra? Claro que não. É só um paraíso possível neste momento, e talvez transitório. Mas que foi bom, isso foi. Se os equipamentos acessíveis vão permanecer, se o olhar das pessoas vai continuar respeitoso, simpático e aconchegante, se a acessibilidade vai se expandir das áreas que receberam os jogos para os demais ambientes, só o tempo poderá dizer. A luta das pessoas com deficiência no Brasil permanece.

 

O Rio de Janeiro ficou mais bonito

 

Com a revitalização, cadeirantes puderam ter acesso mais adequado ao metrô, ao BRT e ao VLT. Os funcionários do metrô, como sempre, foram muito atentos, gentis e prestativos. Entretanto, os ônibus continuam inacessíveis, em sua grande parte. E as adaptações no metrô nem sempre são adequadas.

O Boulevard Olímpico ofereceu suas cores, sua arquitetura, o belo mural de Eduardo Kobra e o aroma do mar às cadeiras que passaram por lá, que puderam transitar com facilidade desde o Píer Mauá até a Candelária (apesar de alguns ressaltos provocados pela capa sobre a fiação, por causa do palco montado e dos telões). E olhe: este passeio rende uma vista maravilhosa!

 

A beleza do Museu do Amanhã fotografado à noite, durante nossa caminhada do Píer Mauá até a Candelária.

A beleza do Museu do Amanhã fotografado à noite, durante nossa caminhada do Píer Mauá até a Candelária.

 

A Casa Brasil estava particularmente estilosa, com exposições instigantes, apresentações artísticas e palestras. Lá, poderiam ser encontrados também banheiros acessíveis, embora não estivessem totalmente adequados: o vaso sanitário tinha abertura frontal, e não havia maçaneta para abrir a porta da cabine acessível. Foi a funcionária dos serviços gerais que gentilmente se ofereceu para abri-la para mim, puxando a porta pela quina, lá no alto. Mas isso não chegou a ofuscar o brilho do local e a acessibilidade para as outras áreas.

Copacabana recebeu uma passarela de material emborrachado, na região do Posto 5, uma vez que parte da calçada estava interditada, já que a prova de triátlon se realizaria ali. É incrível a sensação de transitar de cadeira de rodas na areia; bem, não na areia, mas através da faixa de areia, sobre a passarela. Já pensou se fosse sempre assim, se Copacabana pudesse ser sempre acessível? E por que não poderia?

O Parque Olímpico enchia os olhos. Era bom saber que qualquer lugar aonde você resolvesse ir dentro do parque seria acessível, embora a distância entre uma arena e outra fosse muito longa, e os carrinhos elétricos para transpô-la, insuficientes diante de um público tão volumoso.

 

Eu passeio sobre a passarela emborrachada sobre a areia de Copacabana. (Foto: Marta Alencar)

Eu passeio sobre a passarela emborrachada instalada sobre a areia de Copacabana. (Foto: Marta Alencar)

 

 

Mudança de olhar

 

Entretanto, o que mais me chamou atenção durante o evento foi mesmo a mudança no olhar das pessoas.

Alguns paravam para conversar comigo na rua, comentando sobre as transformações que tornaram a cidade mais acessível: “— Assim ficou melhor, né, moça?”. No restaurante e na farmácia, houve quem me perguntasse se eu também era atleta, porque, afinal, estava toda “paramentada”. No hotel, uma camareira pediu para tirar foto comigo.

Como eu me senti? Como uma pessoa igual às outras, que merece atenção positiva, ao contrário do que já revelei neste texto, quando comentei sobre o difícil olhar que muitas pessoas nos lançam, como se estivessem vendo um ET. Desta vez, não recebi olhares de piedade, mas de respeito, admiração e cumplicidade.

 

Selfie durante competição de basquete.

Selfie durante competição de basquete.

 

 

Convivência

 

A Rio 2016 proporcionou algo fundamental: convivência intensa entre pessoas com e sem deficiência. Se as pessoas não convivem, não é fácil superar preconceitos. Tudo fica no nível do intelecto, na teoria. Quando há convivência, tenho oportunidade de conhecer o outro e compreender, na prática, que ele não me oferece riscos. Na verdade, me possibilita o crescimento que ocorre na interação entre os diferentes.

 

Estou com o Joaquim, que foi assistir ao remo com a mãe, Sandra.

Estou com o Joaquim, que foi assistir ao remo com a mãe,  a simpática e comunicativa Sandra.

 

Na competição de remo, no Estádio da Lagoa, tive a oportunidade de conversar com a mãe de uma criança com deficiência intelectual que me deixou com o olhar mais apurado. Explico. Eu já estava observando a criança há algum tempo, durante as competições. A deficiência severa a impedia de falar, e até de se expressar usando gestos, mas era possível notar que ela observava a prova com atenção. Sorria, às vezes.

A mãe me disse que não é sempre que sai com a criança, até porque a multidão pode deixá-la incomodada em ambientes fechados. Mas me revelou que sentia satisfação por notar que, ali, e durante a temporada de jogos, o garoto era visto com naturalidade, sem os costumeiros olhares de estranhamento ou piedade, tão constrangedores.

E isso é compreensível, afinal, na Rio 2016, não era pequeno o número de indivíduos cujas cadeiras de rodas pareciam um CTI ambulante. Depois que as pessoas se deparam com algumas dessas por aí, as cadeiras deixam de causar assombro, concorda?

E viva a interação!

 

Estádio da Lagoa Rodrigo de Freitas. Mesmo nublado, a paisagem é linda.

Estádio da Lagoa Rodrigo de Freitas. Mesmo com tempo nublado, a paisagem é linda.

 

 

Comeram mosca

 

Foi uma pena que as TVs abertas deixassem de transmitir os jogos; isso privou um público imenso de ter acesso às competições e ao universo paralímpico. Assim como também achei uma pena que houvesse jornalistas despreparados para lidar com o universo da pessoa com deficiência. Pouca leitura teria sido suficiente para evitar que fossem usados termos pejorativos e até mesmo outros ultrapassados, como “paralítico”, palavra abominável que eu ouvia quando era criança e retornou agora, na boca de alguns.

A palavra superação* esteve também na boca de muitos. Isso é também compreensível, porque o esporte de alto rendimento é mesmo o lugar por excelência da autossuperação. Mas muita gente estava mesmo era encantada com o “heroísmo” dos nossos atletas com deficiência, chamados até mesmo de “super-humanos”. Afinal, quanta gente ainda acredita no mito dos “coitadinhos”? Nesse caso, são heróis quando aparecem na situação de atletas de alto rendimento, não é mesmo?

Mas o fato é que não somos nem coitadinhos, nem super-humanos. Somos humanos, com dificuldades em comum com outros humanos, necessidades em comum, e outras mais específicas. Por causa da falta de acessibilidade ambiental e atitudinal, temos precisado reunir muitas forças para ultrapassar barreiras. Mas não é preciso que seja assim: uma cidade acessível nos libera para viver uma vida com mais qualidade e menos sacrifícios. Numa sociedade que dá lugar para todos, não precisaremos matar um leão por dia para ser aceitos e para mostrar que temos valor.

 

Mural de Eduardo Kobra, no Píer Mauá.

Mural de Eduardo Kobra, no Píer Mauá.

 

Arena Carioca 3, no Parque Olímpico.

Arena Carioca 3, no Parque Olímpico.

 

Jogo de basquete, com arquibancadas lotadas.

Jogo de basquete, com arquibancadas lotadas.

 

 

Legado

 

Muita gente tem se perguntado pelo legado da Paralimpíada Rio 2016. Acredito sinceramente que ela colaborou para uma mudança de olhar, e isso não me parece pouco.

A Paralimpíada nos mostrou a materialização de uma utopia, um mundo possível, um mundo que se preparou para receber a pessoa com deficiência como a qualquer outra pessoa, e que por isso lhe permite se expressar, mostrar a que veio, mostrar que não é coitadinha.

Claro, vai depender de nós não deixar este assunto sair das mentes. Mas que foi um caminho aberto, isso foi.

 

*Nota: Utilizei várias vezes no texto a palavra “superação” como uma espécie de provocação. Essa palavra costuma ser proscrita dos textos e das conversas, por parte de alguns que a demonizam, enquanto é utilizada à exaustão por parte de outros que desconhecem a celeuma que ela é capaz de causar.

Por trás do uso de uma palavra, há toda uma visão de mundo.

Indivíduos com deficiência têm sido, ao longo dos anos, incentivados a superar sua deficiência para se encaixar à sociedade. É essa a visão de mundo que queremos ver superada quando evitamos o uso do verbo e do substantivo “superar” e “superação” em certos contextos. É a visão estreita dos que pensam que cabe à pessoa com deficiência o esforço para estar em igualdade de condições com os demais, e que ela deve superar a deficiência para ser aceita. A verdade é que a sociedade precisa promover mudanças para que os que têm uma deficiência estejam em igualdade de condições com os demais.

Cada qual sabe em que medida pode cuidar de si a fim de se recuperar fisicamente ou emocionalmente, mas há limites para isso. Não há milagres, embora os desejemos muito. Mas a sociedade, sim, pode se adequar para receber o diferente. É preciso compreender que a deficiência “é produto da soma das características do indivíduo com a maneira pela qual o meio ambiente lida com essas características” (Manual da Mídia Legal vol. 3).

Ao se referir ao atleta paralímpico, muitos jornalistas (e também pessoas com deficiência) supervalorizaram a capacidade desses atletas de superação da própria deficiência. Esse não deixa de ser um enfoque sentimentalista. Além disso, foi feita, muitas vezes, uma diferenciação entre atletas com e sem deficiência, já que, entre estes últimos, o usual é falar de sua técnica e de suas capacidades. Mas muitas discussões tiveram lugar por causa disso, o que faz a conscientização avançar!

Bem, prosseguiremos este assunto sobre o uso das palavras em outra oportunidade! Até a próxima!

 

Texto da jornalista Cláudia Werneck, publicado no Facebook durante os jogos, para refletir sobre o uso da palavra "superação".

Texto da jornalista Claudia Werneck, publicado no Facebook durante os jogos, para refletir sobre o uso da palavra “superação”.

 

 

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