Viagem aérea: como se virar durante o voo

 

Este é o segundo post da série sobre viagem aérea. No primeiro, dei 13 dicas sobre o antes da viagem: compra de passagem, circulação no aeroporto e por aí vai. Agora, o assunto é como se virar durante a viagem. Sossegue: não é fácil, mas é possível. Você não vai deixar de bater asas por causa disso!

 

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Me lembro bem da preparação para a minha primeira viagem aérea internacional. Seria um voo de 11 horas, e minha principal preocupação era como eu iria me virar para ir ao banheiro… Na época, era raro encontrar algo na internet a respeito de viagens para cadeirantes.

Telefonei para as poucas amigas que viajavam usando cadeira de rodas, juntei as informações possíveis, e ainda assim me sentia insegura. Mas segui rumo à Europa assim mesmo, e sozinha, para encontrar um amigo que me aguardava em Genebra, onde mora.

Muitas viagens depois, que bom, aqui estou dividindo experiências e muitas dicas com vc! Mas lembre-se: as dicas desses dois posts têm o objetivo de auxiliar pessoas com deficiência física ou mobilidade reduzida; dizem respeito ao universo delas. Para dicas gerais, você vai encontrar excelentes blogs pela web! =)

 

Nada como ter liberdade de ir e vir, e isso depende muito da acessibilidade, mas depende ainda mais da resiliência do viajante!

Nada como ter liberdade de ir e vir, e isso depende muito da acessibilidade, mas depende ainda mais da resiliência do viajante!

 

 

#DicasDaCadeira

 

Entrando na aeronave

 

1) O ideal é optar por permanecer com seu equipamento (cadeira de rodas manual ou motorizada, ou scooter, ou andador) até a entrada do corredor da aeronave.

Daí em diante, vc será transferido para seu assento (em aeronaves pequenas, de um corredor) ou será transferido para uma cadeirinha estreita, na qual será levado até sua poltrona (em aeronaves maiores).

Seu equipamento será levado por um funcionário até o porão da aeronave. Quem usa muletas poderá solicitar uma cadeira de rodas no aeroporto, para não ter que percorrer as longas distâncias andando. Poderá entrar com elas na aeronave, para serem utilizadas durante o voo, caso necessite usar o banheiro; elas serão guardadas no bagageiro e retiradas quando necessário.

 

BBC

 

2) Você precisará orientar o funcionário que guardará sua cadeira de rodas. Explique a ele como dobrá-la, se ela for em “X”. Se for monobloco, apenas deite o encosto. Retire a almofada e leve-a com você, para evitar que desapareça. Eu a coloco nas costas, mas vc também pode viajar sentado nela.

3) Para alcançar sua poltrona, ou para ir até o banheiro, as aeronaves maiores e de longo curso possuem uma cadeira de transbordo (aisle wheelchair). Trata-se de uma cadeira bem estreita, com rodinhas, para conseguir passar pelos corredores apertados. Vc precisará se transferir para ela e será atado com cintos de segurança para ser transportado até o toalete.

Já aconteceu comigo, mais de uma vez, de os comissários não saberem onde a cadeira estava guardada e também não saberem utilizá-la. Mas não se desespere com isso! No final das contas, sempre conseguem encontrá-la, montá-la e operá-la, embora visivelmente a maioria não tenha recebido treinamento para isso.

 

Há vários tipos de cadeira de transbordo, mas elas são sempre muito estreitas, para poder passar nos apertados corredores das aeronaves

Há vários tipos de cadeira de transbordo, mas elas são sempre muito estreitas, para poder passar nos apertados corredores das aeronaves

 

4) Se vc estiver assentado em uma poltrona na saída de emergência, não será permitido permanecer com sua bagagem de mão (mochilas ou bolsas maiores), porque elas podem bloquear a saída se houver pane. Caso esteja assentado em outro local, poderá colocar sua mochila debaixo do assento da frente, mas na primeira fileira não há onde colocá-la. Em qualquer caso, seu acompanhante ou o comissário de bordo poderão colocar suas coisas no bagageiro e retirar quando vc precisar. Eu mantenho alguns itens numa bolsinha a tiracolo, para usar quando precisar, sem necessidade de solicitar ajuda.

 

Na imagem, é possível ver como se deve acomodar a bagagem de mão.

Na imagem, é possível ver como se deve acomodar a bagagem de mão.

 

5) Itens para ter sempre com você: documentos (não se separe deles por nada), caneta (vc pode precisar de uma para preencher algum documento), celular. O dinheiro pode ir naquelas pochetes de tecido que colocamos por baixo da roupa, a qual vc pode comprar até na revista da Avon.

O que eu levo na bolsinha que fica comigo (em viagens longas; nas curtas, não é necessário): colírio (o ar-condicionado é forte, e o olho pode ficar bastante ressecado); hidratante labial (pela mesma razão); máscara para dormir e protetor auditivo (não consigo dormir com luz no rosto nem com gente conversando); lencinho umedecido (quando a viagem é longa, acredite: é uma bênção poder contar com os lencinhos, tanto para usar nas axilas, quanto no rosto, quanto na higienização no banheiro; há vários tipos).

 

6) Lembre-se: em voos internacionais, vc não pode entrar com garrafinha de líquido a bordo, mas pode entrar com a garrafa vazia. Sempre levo uma na mochila, porque algumas companhias não oferecem água em garrafinha, e sim em copo, e eu gosto de guardar um pouco para tomar quando necessitar. Como eu já disse, o ar-condicionado resseca bastante o ar, e podemos precisar de hidratação durante a noite, por exemplo.

 

Uso do banheiro

 

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7) Se haverá banheiro “acessível” a bordo, isso depende do tamanho da aeronave. As de pequeno porte, que fazem voos domésticos e têm apenas um corredor, têm apenas aquela cabine onde apenas pessoas magras e crianças conseguem entrar, de tão apertada que é… E coloquei “acessível” entre aspas porque nunca deparei com banheiros de fato acessíveis em aeronaves.

Nas maiores e de longo curso, com dois corredores, que fazem viagens internacionais, é comum que o banheiro seja maior e até mesmo possua alguma acessibilidade. Na maioria dos voos internacionais que fiz, quando eu precisava usar o banheiro, eles sofriam uma “transformação” para se tornarem usáveis por um cadeirante. Havia dois banheiros, um ao lado do outro – ou um em frente ao outro –, que eram unidos e convertidos em um banheiro maior. Esses banheiros tinham barras de segurança.

Mesmo assim, a utilização não é simples. Primeiro, porque nem sempre a cadeira de transbordo conseguirá entrar de forma que a transferência seja confortável para nós. Segundo, porque pode haver alguma turbulência exatamente quando você estiver lá, e o equilíbrio no vaso sanitário ficar instável. Terceiro, porque nem sempre caberá uma pessoa dentro dessa cabine para auxiliar o cadeirante. Quarto, porque nem sempre o banheiro estará limpo, e nem sempre haverá papel-toalha, sabonete e até papel higiênico (mas peça ao comissário para repor, se já tiver acabado).

 

Os banheiros das aeronaves são sempre pequenos, mas costumam ser maiores nas viagens de longo curso

Os banheiros das aeronaves são sempre pequenos, mas costumam ser maiores nas viagens de longo curso

 

8) Se você usa muletas, então provavelmente terá condições de ir andando até o banheiro. O ideal, porém, é que mesmo assim solicite ajuda do comissário, só por causa do risco de haver alguma turbulência. De qualquer modo, o pior que pode acontecer é vc cair no colo de alguém… hehehe

9) Se você não tem autonomia para executar suas necessidades básicas, é prudente e mais seguro viajar com acompanhante. O máximo que os comissários poderão fazer é auxiliá-lo na transferência para sua poltrona, na acomodação da bagagem e na circulação a bordo. Eles não poderão auxiliá-lo a se alimentar, nem a utilizar o toalete.

10) Procure se programar para ir ao banheiro nos momentos de menor movimento a bordo. Até porque precisamos de ajuda dos comissários para buscar a cadeira de transbordo. Se o pedido for feito em horários mais movimentados, será muito difícil passar no corredor, por causa do fluxo de pessoas, a não ser que seja uma emergência. Nesse caso, bote a boca no trombone; comunique claramente sua necessidade, sem nenhuma vergonha, e insista, insista mesmo.

 

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11) Em viagens de longa distância, talvez seja interessante voar à noite, para que você possa dormir e assim espaçar a necessidade de ir ao banheiro. Eu vou ao banheiro antes de dormir (logo após o jantar, ou um pouco antes). E acordo antes de todo mundo para ir novamente. Para saber os melhores horários, converso com um dos comissários e combino tudo.

12) A bordo, tome a menor quantidade de líquido que conseguir, para diminuir as idas ao banheiro. Lembre-se de que bebidas alcoólicas são diuréticas… E, para correr menos risco de desidratar durante o voo, tome bastante líquido nos dias anteriores e vá molhando a boca durante a viagem, quando for realmente necessário. Quando chegar ao seu destino, compense essa “dieta” ingerindo bastante líquido!

 

13) Fazer cateterismo ou não?

Para quem não está a par, cateterismo é o esvaziamento da bexiga através de uma sonda ou cateter. Fazê-lo ou não durante o voo precisa ser uma decisão pessoal, porque cada um sabe das suas condições. Mas eu não considero esta uma operação simples, porque o uso do banheiro já não é simples quando a gente precisa apenas tirar a roupa para usar o vaso sanitário; imagine quando precisa de higiene e equilíbrio…

 

⇒ Caso opte por fazer:

– Leve na sua mochila uma nécessaire com todos os itens de que irá precisar. E guarde-a de forma que seja fácil retirá-la da bagagem.

– Considere levar álcool-gel para higienização, porque é comum sair muito pouca água da torneira da pia, e, como eu disse, às vezes o sabonete acaba e não é reposto.

– Leve um acompanhante; não viaje sozinho! 😉

 

⇒ Caso opte por não fazer:

– Viaje usando fralda descartável, para reduzir a ansiedade e fazer com calma todo o processo de ir ao banheiro. Eu faço isso. Há boas opções no mercado. Com antecedência, vá a uma farmácia, pesquise as marcas e modelos e até faça um teste antes da viagem.

– Para mulheres que têm dificuldade de se assentar no vaso, por causa dos espasmos: existe um acessório feminino para fazer xixi em pé. Tente encontrar no Google… Isso pode facilitar a vida da pessoa, se ela tiver liberdade para permitir que seu acompanhante segure o coletor enquanto ela urina em pé. Não aconselho fazer isso sozinha, se vc tem equilíbrio precário. Lembre-se: o avião sempre balança um pouquinho…

 

Dicas espertas:

 

14) Caso esteja viajando sozinho e precise da ajuda do comissário, há como chamá-lo utilizando uma campainha, cujo botão estará no braço do seu assento. Contudo, em geral eles não aparecem. O que eu faço? Combino com eles de passarem os olhos em mim durante a viagem, ou peço para algum colega de viagem andante me ajudar nessa. Sempre dá certo.

15) Se você vai viajar por uma companhia estrangeira, aprenda pelo menos algum vocabulário básico em inglês (ou na língua falada pelos comissários) a fim de conseguir comunicar suas necessidades básicas, relacionadas a necessidade de ir ao banheiro, a fome ou a desconforto e dor. De qualquer modo, companhias estrangeiras que voam para o Brasil costumam ter pelo menos um comissário que fala português. Em caso de dificuldades, peça para chamá-lo.

16) Viaje com roupas confortáveis e fáceis de serem retiradas numa ida ao toalete. E não se esqueça de levar agasalho!

 

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Boa viagem!

Espero ter auxiliado você a preparar sua viagem aérea reduzindo as chances de desconforto. É normal a gente se sentir inseguro nas primeiras vezes. O importante é confiar na própria capacidade de se reinventar diante dos desafios!

E, se pensa que esta série termina aqui, se enganou. Decidi fazer mais um post, mostrando que semanas antes você já pode começar a se preparar para ter uma viagem mais confortável. Como? Aguarde!

 

Para saber mais:

 

Infraero | Perguntas frequentes sobre acessibilidade

Guia de Direitos e Acessibilidade do Passageiro com Deficiência em Viagens Aéreas

Viagens aéreas: 13 dicas para evitar problemas

 

Na minha primeira viagem internacional, viajei sozinha para Genebra. Se houve problemas a bordo? Sim, houve. Mas valeu a pena? Claro que sim! Nada como acumular experiência para facilitar os próximos voos!

Na minha primeira viagem internacional, viajei sozinha para Genebra. Se houve problemas a bordo? Sim, houve. Mas valeu a pena? Claro que sim! Nada como acumular experiência para facilitar os próximos voos! (Todas as fotos foram retiradas do Google, com exceção desta, que pertence ao meu acervo.)

 

 

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