Acessibilidade para cadeirantes em Madri

 

Nesta imagem, às minhas costas você vê o belo edifício do CentroCentro Cibeles. (Todas as fotos pertencem ao meu acervo, exceto quando indicado)

 

Depois dos posts sobre a cidade de Porto, agora é a vez de Madri, a última parada antes de retornarmos ao Brasil, na viagem que fiz à Europa em outubro. Vamos saber sobre a acessibilidade para cadeirantes?

Confesso: estava um pouco apreensiva. Algumas pessoas que conheço não gostaram de Madri; outras a elogiavam pelos museus, pelo conjunto histórico, pela modernidade e até pela acessibilidade. Fiquei sem saber o que iríamos encontrar.

Já sabíamos que era muito movimentada e barulhenta, afinal é a capital e a maior cidade da Espanha. Mas não pensei que seria tanto! Os motoristas buzinam sem parar, não respeitam o semáforo nem as faixas de pedestre; as pessoas falam alto e num tom que parecem estar brigando (mas não estão… rs), caminham rapidamente e são estressadas.

Então combinei com Helena, minha acompanhante nesta viagem, que eu estava nos apresentando o desafio de descobrirmos o que a cidade tinha de melhor. Afinal, a gente já tinha entrado em contato com o pior assim que chegamos lá.

 

O pior de Madri

 

Vamos começar pelo pior e deixar o melhor para depois? Acho que assim consigo algum suspense… rsrs

 

Não ria, nem chore ao ver a entrada acessível deste teatro na Calle de Alcalá, perto da Puerta del Sol.

 

Problemas com táxi e com hotel

 

Chegamos a Madri após 2h30 de viagem de trem de alta velocidade (AVE), por sinal muito confortável. Mas havíamos tido problemas para embarcar (te conto em outro post, tá?); por isso, eu estava bem cansada.

A estação ferroviária nos pareceu um labirinto, muito movimentada e barulhenta. Tivemos dificuldade para nos localizar e encontrar o banheiro.

Por fim, conseguimos encontrar a saída, onde havia filas imensas de táxis e uma pessoa orientando os passageiros. Esse rapaz nos designou um automóvel. Eu jamais imaginaria o que iria acontecer em seguida: o motorista não aceitou nos transportar, alegando que minha cadeira de rodas não cabia no carro.

Mais de uma vez, dissemos a ele que cabia. É uma cadeira monobloco; sempre tiro as rodas e oriento o motorista a colocá-la “sentada” no banco da frente. Por causa desse “jeitinho”, cabe em qualquer carro. Mas não houve jeito; ele nem quis nos ouvir.

Voltei indignada até o rapaz que orientava o fluxo e contei o que tinha acontecido; ele nos designou outro táxi. O novo motorista alegou que a cadeira não cabia. Desta vez, fomos nós que não quisemos ouvi-lo. Entrei no carro imediatamente, Helena pegou a cadeira, tirou as rodas e a colocou no banco da frente, antes que ele nos impedisse…

Durante todo o trajeto até o hotel, o motorista continuou dizendo que a cadeira de rodas não cabe nos carros comuns (mesmo ela já estando lá). E, assim, nos deu um cartão para que, da próxima vez, pedíssemos um táxi adaptado. Bem, eu não preciso de táxi adaptado… Mas, caso você precise, fotografei o cartão. Está aí! rs

 

Frente e verso do cartão que o motorista nos ofereceu. Segundo ele, nesta companhia há táxis adaptados. #Ficaadica

 

Mas não seria a última vez que um motorista se recusaria a nos levar. Na noite anterior à da viagem de retorno, pedimos na recepção que reservassem um transfer para nós, uma vez que sairíamos às 4 da manhã. Resultado: quando a atendente avisou ao motorista que transportaríamos duas malas médias e uma cadeira de rodas, ele declarou que não iria nos buscar, porque a cadeira não cabia no seu carro. Não fico irritada com muitas coisas nesta vida, mas, desta vez, tive vontade de mandar o sujeito para aquele lugar.

Para saber sobre os desafios que enfrentamos no hotel, você pode clicar aqui .

 

Acessibilidade: não é o que parece

 

Sempre ouvi falar que a Espanha é muito acessível. Talvez tenha sido por causa dessa expectativa que fiquei um pouco decepcionada com Madri, embora a cidade seja muito mais wheelchair-friendly do que a maioria das que conheço. Vou citar os problemas que identifiquei:

1) Apenas metade das estações de metrô e metade dos vagões tem acessibilidade. Nenhuma das vezes valeu a pena pegar. Preferimos os ônibus; toda a frota tem piso baixo com rampas ejetáveis.

 

Printei esta página do Madrid para todos | Guía de Turismo Accessible (6ª ed.). Ela traz informações sobre acessibilidade nos ônibus em Madri.

 

2) Grande parte do comércio é inacessível. Pelo que observamos, apenas as grandes redes são acessíveis, como El Corte Inglés, e uma ou outra loja de menor porte.

3) O Museu Reina Sofia tem acessibilidade parcial: os corredores são largos e compridos, mas as rampas que dão acesso às salas, de modo geral, são muito íngremes. Várias vezes precisei de ajuda para transpô-las. E o que achei mais estranho: não há passagem interna acessível para o restaurante/cafeteria. Tivemos que dar a volta por fora para encontrá-lo. No restaurante, o acesso para cadeirantes era parcial: como alguns dos ambientes estavam fechados, na área liberada só havia mesas altas com bancos altos, como nos pubs; por isso, ficamos na cafeteria, bem isolada e vazia; só estávamos Helena e eu. Na minha avaliação, o nome disso é exclusão.

4) Só encontramos restaurante acessível na loja El Corte Inglés, mas também não pesquisamos antes. Abaixo e também neste link, vou te deixar de presente um guia de acessibilidade em Madri, por sinal muito bem produzido. É a 6ª edição; ganhei no CentroCentro Cibeles um CD com a 7ª edição. Consulte-o antes de se aventurar, caso ache inseguro demais escalar degraus e escadas. Comemos em excelentes restaurantes, mas nenhum com acessibilidade.

5) De modo geral, as calçadas por onde passamos são boas, assim como os rebaixamentos. Mas há exceções.

Bem, como eu disse acima, estávamos determinadas a encontrar o melhor da cidade. Lembra-se disso? Eu sei que você se lembra! Vamos?

 

O melhor de Madri

 

Muita gente passa um dia numa cidade e acha que a conhece. Dos 5 que passamos em Madri, um foi destinado a visitar Toledo; outro foi o dia em que chegamos. Na prática, só ficamos 3 dias. Não deu para muita coisa, até porque tanto eu quanto Helena não somos amigas da pressa: gostamos de almoçar devagar, tomar um vinho, um café ou comer um docinho, preferimos visitar as atrações no modo slow e, além disso, paramos eventualmente para fazer umas comprinhas.

Mesmo não podendo dizer que cobrimos toda a cidade, posso fazer boas indicações de passeios, como você verá! Mas, é claro, agora temos uma boa desculpa para retornar…

 

Fotografei esta vista a partir do Mirante do CentroCentro Cibeles, para que você tenha ideia da visão que um cadeirante conseguirá ter

 

Sugestões Cadeira Voadora

 

A primeira sugestão é: passeie “a pé” pelas ruas. Muitas delas, entre a região dos museus e o centro histórico, são lindas.

Se você não tem quem possa empurrar sua cadeira, lembre-se de que algumas ruas são íngremes e que pode ser uma boa opção locar cadeira motorizada ou scooter. Encontre endereços neste excelente guia.

Creio que quase todas as ruas têm mão única… Então, se o local não for muito distante, não vale a pena pegar táxi ou Uber, pois eles precisarão dar muitas voltas para chegar ao destino. Ah! É muito fácil pegar Uber em Madri.

Para falar das atrações, preferi colocar as fotos com alguns comentários sobre cada uma.

 

Passeie a pé pelas ruas de Madri! Vale a pena. Na foto, eu e Helena flanando pelas ruas

 

Paseo del Arte

 

Este é um dos itinerários artísticos e culturais mais importantes do mundo. Admire os museus, a arquitetura, os jardins, fontes e monumentos ao longo do Paseo del Prado, Calle de Alcalá, Puerta del Sol y Paseo de Recoletos. Nesta região, próximos um do outro, estão três dos museus de pintura mais importantes do mundo – o clássico Prado, o eclético (e recheado de Rodins) Thyssen-Bornemizsa, o moderno Reina Sofía (onde está o Guernica!).

Em alguns trechos, pode haver calçada de pedra, o que certamente dificulta a passagem da cadeira de rodas, mas não desanime. É uma região belíssima, de encher os olhos. Vale fazer um esforço extra.

Ingressos: é comum que seja exigida documentação comprobatória da deficiência. No Reina Sofia, expliquei que era estrangeira e no Brasil não havia essa identificação. Por causa disso, permitiram que Helena e eu entrássemos gratuitamente. No Prado, tivemos de pagar, e não foi nem um pouco barato.

Circulação: como costuma acontecer nos grandes museus de arte, os dois que visitamos também são um labirinto. Muita calma nesta hora! Pegue mapas, pergunte, pergunte, pergunte. Principalmente no Prado, tiveram muita paciência para nos explicar tudo.

Horários: vimos em algum guia impresso que o melhor horário de visita (o mais vazio) é o da siesta, quando a cidade fica deserta. Parece que é isso mesmo: chegamos aos museus sempre por volta das 15h e pudemos ver tudo sem empurrões. No Reina Sofia encontramos apenas uma pessoa na fila; inacreditável, porque costumam ser longas nos demais horários. Quando estávamos indo embora, já estava lotado, mesmo sendo baixa temporada.

 

Pátio interno com jardim no Reina Sofia. É possível circulá-lo com cadeira de rodas, mas é difícil penetrar no espaço, por conta de alguns ressaltos e pedriscos

 

Sobre o Reina Sofia, falei da acessibilidade acima. Para saber mais a respeito, clique aqui. Contudo, mesmo ela não sendo completa, você tem de passar por lá, pois é o mais importante museu de arte da Espanha para obras que vão do final do século XIX até a atualidade, principalmente de artistas espanhóis, como Dalí, Miró e Picasso. A estrela, certamente, é Guernica, de Pablo Picasso. Fiquei muito emocionada ao contemplá-lo.

O edifício, que originalmente abrigou um hospital, é muito bonito. Três elevadores panorâmicos dão um charme moderno ao conjunto. Achei bacana ter escaninhos acessíveis para guardar as mochilas; ficam ao alcance do cadeirante.

Deixe para lanchar em outro lugar. Lá, definitivamente, não compensa.

 

Colagem com duas imagens. Na primeira, a rampa que dá acesso ao jardim do Reina Sofia; na segunda, uma das esculturas do jardim (esta é de Miró).

 

Na primeira imagem, estou de frente a uma janela que dá para o pátio do Reina Sofia. Os corredores são muito largos e amplos, com piso cimentado. Na segunda foto, estou em frente à entrada do museu.

 

Museu do Prado

Um dos melhores museus de pintura do mundo, abriga obras-primas das escolas espanhola, italiana e flamenca. Goya, Velázquez, Rafael, Rubens, Bosch são alguns dos gênios que você vai encontrar lá. Um museu absolutamente maravilhoso!

Neste site, há recomendações do que ver, pois a quantidade de obras é tão grande que vale a pena selecionar, para não ficarmos feito loucos sem saber aonde ir. Pegando o mapa na entrada, também há indicações das obras mais importantes.

O que é imprescindível ver no Museu do Prado

Tem boa acessibilidade, mesmo que algumas rampas que fazem a ligação entre uma sala e outra possam ser mais íngremes.

Não deixe de visitar em nenhuma hipótese. Ah! Tem uma lojinha com itens de muito bom gosto, assim como bons livros (comprei dois livros de arte para adolescentes; adoro!). Tem cafeteria dentro e fora do edifício.

 

Fachada frontal do Museu do Prado (foto de Javier Carro – licença Creative Commons)

 

 

Mercado de São Miguel

 

Fica ao lado da Plaza Mayor. A entrada principal tem rampa, sem a inclinação adequada, mas não chega a ser perigosa. Os corredores têm cerca de 1 m de largura e é possível circular com tranquilidade.

Mas os balcões das lojinhas são altos, as mesas e tamboretes também. Ou seja: é difícil comer e beber num lugar desses se a pessoa usa cadeira de rodas. A não ser que ela não se importe de colocar seus comes e bebes em um tamborete e de conversar com os amigos olhando para cima.

É uma pena, porque há muita coisa bacana por lá, tanto para comer quanto para beber, incluindo doces muito convidativos e coquetéis bastante criativos.

Não ficamos muito tempo, só passamos para conhecer. Estava cheio demais, e não tinha nenhuma mesa vaga…

Saiba mais aqui.

 

Entrada principal do Mercado de San Miguel

 

CentroCentro Cibeles

 

O Centro Cibeles não deve deixar de ser visitado. Além de ter um mirante acessível por elevador (peça informações no balcão de atendimento), oferece exposições interessantes, lojinha bacana, restaurante/cafeteria, entrada acessível e banheiro acessível.

O edifício é lindíssimo, tanto na parte externa quanto em seu interior.

Achei os funcionários muito bem-preparados para lidar com pessoas com deficiência: souberam nos dar informações claras, com objetividade, e até ganhei um CD-Rom com informações sobre acessibilidade em Madri.

Só encontrei um ponto dissonante: os balcões de informação são muito altos.

Coloque este local na sua lista se você aprecia arte, cultura, arquitetura e belas vistas. Você não vai se arrepender.

 

Na primeira foto, painel com o mapa do CentroCentro e balcão de venda de ingressos ao fundo. Na segunda foto, o balcão de venda de ingresso para o mirante.

 

Repare na beleza do interior do Centro Cibeles: o piso é de tijolos de vidro, o que causar vertigem em algumas pessoas. Dos corredores, se vê praticamente todo o prédio, que tem vários andares.

 

Centro Cibeles: pude ver toda a exposição, porque os balcões são acessíveis a cadeirantes

 

CD-ROM que ganhei no balcão de informações turísticas localizado dentro do Centro Cibeles.

 

Templo de Debod

(pronuncia-se “debô”)

 

Dizem que oferece o pôr do sol mais belo da cidade! Deve ser verdade, mas não temos como comparar, porque não fomos vê-lo em outro lugar. Além disso, muita gente comparece ao “evento”, pessoas tocam instrumentos, e tudo isso forma um clima super gostoso.

No mapa abaixo, resultado de um print do Google Maps, te mostro onde se localiza a entrada acessível para o parque onde está o templo, que não tem acessibilidade. Trata-se de uma construção do século II a.C que foi transplantada do Egito pedra por pedra. Entre os andares e as salas, há degraus altos e escadas, segundo o guia que consultamos. Isso não impede que você o visite externamente, o que por si só já vale a pena, especialmente se for possível  aguardar o pôr do sol.

Legenda: A estrela te mostra onde o táxi nos deixou; o motorista não sabia se havia entrada acessível. A seta te mostra a localização aproximada da única entrada acessível; as demais têm escada.

 

 

 

O belo entardecer no Templo de Debod

 

Estação de Atocha

 

A principal estação ferroviária de Madri merece uma visita com calma, ainda que você não pretenda viajar de trem. No nosso caso, chegamos por lá, desde Barcelona, e estivemos lá novamente, quando embarcamos para Toledo.

É um belo edifício construído em ferro e vidro, com um agradável e fresco jardim tropical, onde as pessoas aguardam tranquilamente seu horário de viagem. Também oferece lojas e restaurantes, assim como banheiros, que são pagos. Há toaletes acessíveis e espaço-família.

A estação é um labirinto… Para não se perder, preste atenção nestes detalhes e use o mapa que está no link informado abaixo:

  • Atocha é o nome geral que recebe o complexo da estação.
  • Puerta de Atocha é a parte da estação onde opera o trem-bala.
  • Atocha-Cercanías é a parte da estação onde operam os trens metropolitanos.
  • Atocha-Renfe é a estação do metrô, da linha 1 (azul), que dá acesso à estação de trem.

(Informação retirada daqui.)

 

Na colagem: primeira foto, fachada da Estação Atocha; segunda e terceira fotos, jardim interno.

 

No jardim tropical de Atocha, tartarugas de verdade fazem a alegria das crianças

 

Globo espelhado reflete as luzes no Espaço Família de um dos banheiros da Estação Atocha. Para distrair as crianças, além das luzes havia música bem calma. Quase fiquei por lá, descansando… rs

 

Ainda farei mais um post sobre Madri, em que vou mostrar o Parque Retiro. É necessário um só para ele, porque há muita coisa pra falar, fotos lindas e vídeos! <3

 

 

Para saber mais:

 

Guía Madrid Accessible (6ª edição)

Madri no Viaje na Viagem, do Ricardo Freire

Madri na “Viagem e Turismo”

Frases inspiradoras nas calçadas de Madri

 

Para ler os posts anteriores sobre Portugal e Espanha:

 

Nos primeiros posts sobre esta viagem, fiz considerações gerais e comecei falando da encantadora Porto, nossa primeira parada. A seguir, ficamos alguns dias em Barcelona para, finalmente, alcançar Madri por trem de alta velocidade (AVE). Sobre Barcelona, a viagem aérea para lá e o trem para Madri, vão ser necessários outros posts, combinado? Há muita coisa para dizer!

Cadeira Voadora na Espanha (o primeiro post da série)

Hotéis acessíveis em Porto, Barcelona e Madri

Itinerários Acessíveis em Porto (SIA)

Visitando Lisboa em cadeira de rodas

Visitando Lisboa em cadeira de rodas 2

De cadeira de rodas em Portugal: Queluz, Cintra e Alentejo

 

Um passeio pelas ruas de Madri vai revelar belas construções históricas

 

Comemos muito bem, na maioria das vezes em restaurantes vegetarianos. As três fotos foram tiradas no Restaurante Vegetariano Artemisa Sol – Huertas, na Calle Ventura de la Vega, 4. Fomos lá umas quatro vezes ou mais…

 

 

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