Farol das Orcas e a habilidade de ouvir o outro

 

Farol das Orcas é muito mais do que simplesmente a história de uma mãe que conduz o filho autista até um biólogo marinho para interagir com orcas. Descubra.

 

Beto Bubas abraça o menino Tristán: uma significativa cena de acolhimento legítimo

 

Muitos anos atrás, deparei com um texto do filósofo e escritor Rubem Alves que me marcou: Escutatória. Dizia o seguinte:

 

Todo mundo quer aprender a falar. Ninguém quer aprender a ouvir. Pensei em oferecer um curso de escutatória. Mas acho que ninguém vai se matricular. (Rubem Alves. In: O amor que acende a lua, pág. 65.)

 

Pois bem: para mim, Farol das Orcas é um curso de escutatória.

 

Sinopse

 

Uma mãe sai de Madri com o filho em busca de Beto Bubas, biólogo marinho que vive em uma reserva marítima na Patagônia argentina. O garoto, autista, não interagia, não falava, não se interessava por nada, até que viu um documentário na TV sobre Beto e seu relacionamento com orcas. Foi a primeira vez que ele saiu de seu isolado mundo e se interessou por algo.

Beto é um homem solitário e isolado, não apenas geograficamente, e tem a vida transformada por essa visita repentina, que, afinal, vai dar uma guinada também na história da mãe e do garoto.

O filme é inspirado numa história real, mas não a reproduz fielmente. A narrativa pode ser lida no livro escrito por Bubas, Agustín corazón abierto, que já está na minha lista.

Veja um trecho do livro neste vídeo. É de arrepiar os cabelos, de tão lindo.

 

 

Muito além do autismo

 

Como eu disse, Farol das Orcas é muito mais do que um filme sobre a tentativa de conduzir um garoto autista até o mundo exterior.

Ele traz muitos elementos para observarmos o que pode acontecer com qualquer pessoa ao interagir com outra que a escuta profundamente.

No texto citado de Rubem Alves, o autor observa que “No fundo do mar – quem faz mergulho sabe – a boca fica fechada. Somos todos olhos e ouvidos”. É isso! Beto sabia ficar de boca fechada para descobrir Tristán.

A verdade é que ele usa com o menino a mesma habilidade que demonstrou ao observar e interagir com as orcas. Isso leva tempo, muito tempo, mas quem ama não tem pressa.

Nos dias atuais, em que vivemos em alta velocidade, quem é que tem paciência de prestar atenção no outro? Não me admira que as técnicas têm se revelado impotentes nos consultórios e nas clínicas, locais em que, mais que nunca, as pessoas precisam de escuta.

Tenho visto terapeutas de diversas áreas preocupados com a melhor técnica. Não se engane: a melhor técnica é a escuta atenta. Nada é eficaz sem ela.

 

Dissolvendo barreiras

 

Farol das Orcas me comoveu profundamente. Acredito que aquele garoto representa em alguma medida cada um de nós, tão carentes de pessoas que nos vejam em profundidade.

Há anos venho oferecendo oficinas de Escutatória, após ter lido o texto de Rubem Alves. Invariavelmente as pessoas saem muito tocadas com a experiência. E eu, mais ainda, porque é minha oportunidade de espalhar sementes de algo em que acredito.

Nossa espécie não sobreviverá sem a escuta profunda. Por isso, recomendo fortemente uma dose de Farol das Orcas para todos que desejem se envolver com os demais e criar vínculos.

O vínculo é capaz de dissolver barreiras e nos mostrar o ser humano para além dos rótulos.

 

Ficha técnica:

Data de lançamento: abril de 2017

Direção: Gerardo Olivares

Elenco: Maribel VerdúJoaquín FurrielCiro Miró mais

Gênero: Drama

Nacionalidades: EspanhaArgentina

Disponível na Netflix

 

Roberto Bubas e Agustín (os da vida real)

 

Para refletir

 

♥ “Já vivi situações em que minha dor não podia ser compreendida, mas em que me sentia confortável apenas estando com alguém realmente disponível para mim, alguém que nada exigia, alguém que não podia compreender meu coração dilacerado, mas que era uma companhia – como um lugar aonde ir quando se está fraco e só – uma presença humana, a civilização depois do deserto.” Eugene Gendlin (citado em Construindo a relação de ajuda)

♥ “Conheça todas as técnicas, domine todas as teorias, mas, ao tocar uma alma humana, seja apenas outra alma humana.” Carl Gustav Jung

♥ “Constato, tanto em entrevistas terapêuticas como nas experiências intensivas de grupo que me foram muito significativas, que ouvir traz conseqüências. Quando efetivamente ouço uma pessoa e os significados que lhe são importantes naquele momento, ouvindo não suas palavras, mas ela mesma, e quando lhe demonstro que ouvi seus significados pessoais e íntimos, muitas coisas acontecem. Há, em primeiro lugar, um olhar agradecido. Ela se sente aliviada. Quer falar mais sobre seu mundo. Sente-se impelida em direção a um novo sentido de liberdade. Torna-se mais aberta ao processo de mudança.

(…) Quando percebem que foram profundamente ouvidas, as pessoas quase sempre ficam com os olhos marejados. Acho que na verdade trata-se de chorar de alegria. É como se estivessem dizendo: ‘Graças a Deus, alguém me ouviu. Há alguém que sabe o que significa estar na minha própria pele’. Nestes momentos, tenho tido a fantasia de estar diante de um prisioneiro em um calabouço, que dia após dia transmite uma mensagem em Código Morse: ‘Ninguém está me ouvindo? Tem alguém aí?’. E um dia, finalmente, escuta algumas batidas leves que soletram: ‘Sim’. Com esta simples resposta, ele se liberta da solidão. Torna-se novamente um ser humano. Há muitas, muitas pessoas vivendo em calabouços privados hoje em dia, pessoas que não deixam transparecer essa condição e que têm de ser ouvidas com muita atenção para que sejam captados os fracos sinais emitidos do calabouço.” Carl Rogers, Um jeito de ser

 

Trailer legendado:

 

 

 

Para saber mais:

 

Roberto Bubas esclarece verdade e ficção em Farol das Orcas

Las orcas que dieron alas a un niño con autismo

 

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