Intercâmbio para cadeirantes: uma experiência possível

Estou passeando de scooter pela região do Quayside, na cidade de Newcastle upon Tyne, onde fiquei durante um mês, fazendo intercâmbio

Estou passeando de scooter pela região do Quayside, na cidade de Newcastle upon Tyne, onde fiquei durante um mês, fazendo intercâmbio. (As fotos pertencem ao meu acervo, exceto quando indicado.)

 

Foi em 2009 que ouvi falar, pela primeira vez, que algum cadeirante tivesse partido para um intercâmbio. Li a respeito da experiência da Ana Beatriz, de apenas 16 anos, numa reportagem do jornal O Globo, que você pode encontrar no Para saber mais, no fim deste post.

Em 2013, a designer de moda Michele Simões, também cadeirante, começou a publicar suas aventuras em dois intercâmbios bem-sucedidos. A Michele é muito comunicativa, escreve de forma bem-humorada e leve, conta todos os detalhes, e por isso suas postagens são muito interessantes e úteis para quem deseja fazer a mesma experiência (mais informações no final do post).

Sempre tive vontade de fazer intercâmbio, mas ele teve de esperar, por diversas razões. Como sou formada em Letras com opção por português e francês, a primeira vez em que tentei foi para estudar o francês. Procurei duas agências grandes e famosas, comuniquei que gostaria de ir para alguma cidade da França ou para Genebra, na Suíça. Na primeira agência que procurei, a atendente me deu alguma atenção; prometeu fazer uma pesquisa e me dar um retorno em breve – e desapareceu. Não consegui mais falar com ela, porque saiu de férias, não deixou outra pessoa a par, não me avisou. Na outra agência, a atendente jamais me deu retorno.

Ainda insisti na empreitada, tentando o intercâmbio em Genebra, numa universidade, com o auxílio de um amigo que vive na cidade. Mas não conseguimos acomodação acessível; só havia uma para cadeirantes, e ela estava ocupada, sem data para vagar. Como, à época, eu não tinha dinheiro para pagar um hotel, a experiência foi adiada.

Mais recentemente, resolvi estudar inglês. Foi então que decidi retomar a busca pelo intercâmbio, agora para estudar esta língua. E resolvi procurar uma agência que não era grande, nem famosa, mas foi indicada por um colega que já tinha utilizado seus serviços duas vezes e se sentia muito satisfeito.

Não é que desta vez deu certo? É esta experiência que começo a te contar nesta nova série de posts!

Atualização em 18/9/2017: Quando eu fiz intercâmbio, ainda não existia programa voltado para cadeirantes. Agora, já há um projeto em andamento. Você pode saber mais sobre ele aqui.

 

#PartiuIntercâmbio

Levamos meses para organizar o intercâmbio, em parte porque não foi simples atender às minhas necessidades específicas, mas também porque eu precisava de tempo para tomar decisões e fazer escolhas.

E quais foram essas necessidades específicas, que eu apresentei à agência, e que também podem ser as suas? Elas podem até parecer óbvias para você, mas certamente não são óbvias para as pessoas que estarão te atendendo. Quando uma pessoa com deficiência vai programar uma viagem, principalmente quando vai ficar um tempo maior fora de casa, e sozinha, TUDO precisa ser explicitado, mesmo que pareça óbvio. E, mesmo assim, pode haver mal-entendidos, como verá.

Ao indicar para a agência minhas necessidades quanto à acessibilidade dos locais, não usei a palavra “acessível”, pelo risco de ela ser compreendida parcialmente. Preferi detalhar aqueles itens de que eu necessitava, justamente para reduzir as chances de haver deficiência na comunicação.

Outro detalhe: não apresentei todas as necessidades logo nos primeiros contatos. E isso aconteceu por um motivo simples, mas importante: eu não tinha experiência com intercâmbio e, por isso, não tinha ideia do que poderia obter no que se refere a conforto e acessibilidade. Por exemplo: logo no início da busca, escolhi fazer a experiência em Londres. Mas a residência estudantil ficava a 20km da escola, o que me forçaria a pegar metrô e ônibus e ainda percorrer uma distância a pé. Fiquei receosa, até porque em Londres as chuvas são frequentes. Por causa disso, mudamos de cidade. Percebe como funciona o processo? Nada é automático, é um processo. E tudo precisa atender a suas singularidades, aos seus desejos e ao seu perfil!

Dito isso, vamos à lista (à minha lista; a sua pode ser diferente…)

 

Lista: Necessidades específicas para o intercâmbio de cadeirantes

  • Escola sem degraus, com portas largas, elevador e banheiro que permitam a entrada da cadeira de rodas (pedi portas com 80cm de largura).
  • Homestay (residência familiar) sem degraus na entrada, com quarto e banheiro no piso térreo e com banheiro que permita a entrada da cadeira de rodas. Eu não pensei nisso à época, mas é interessante questionar sobre a acessibilidade na cozinha. Afinal, você precisará, no mínimo, tomar água ou usar a geladeira para guardar algum item.
  • Residência próxima da escola (indicar a distância ideal para você).
  • Transporte público acessível (estudar qual transporte pretende usar e verificar se atende a suas necessidades)
  • Táxi acessível (caso decida por não utilizar transporte público)

 

Nesta foto, estou com os estudantes que estavam iniciando o intercâmbio naquela semana, após termos feito um tour de reconhecimento do centro da cidade, a pé

Nesta foto, estou com os estudantes que estavam iniciando o intercâmbio naquela semana, após termos feito um tour de reconhecimento do centro da cidade, a pé. (Foto tirada pelo guia do passeio)

 

Problemas acontecem…

 

Quando desisti de Londres, a agência me apresentou as cidades possíveis no Reino Unido, já que, naquele momento, eu não queria ir para outros países de língua inglesa. Meu desejo era fazer contato com o inglês britânico e buscar uma imersão nessa cultura. Já conhecia os EUA, e o inglês norte-americano sempre foi mais fácil para mim. Então, era hora de buscar melhorar o listening e o talking em outras bandas do planeta!  E o Reino Unido sempre me fascinou pela riqueza da história, da cultura e pela gentileza do seu povo e elegância no trato.

Foi assim que decidi por Newcastle upon Tyne, cidade da qual eu só tinha ouvido falar por causa do futebol. Além disso, a escola indicada pela agência se mostrava preparada para receber cadeirantes, informando que tinha entrada plana, elevador e banheiro acessível. O único problema seriam dois degraus para entrar no café. Nesse caso, haveria pessoas disponíveis para me ajudar, a escola garantiu.

Eu queria ficar em casa de família (homestay), para aprofundar a experiência de imersão cultural. A escola indicou uma residência que havia hospedado um estudante cadeirante. Pedi fotos e perguntei várias vezes se a residência tinha degraus e se a porta do banheiro tinha pelo menos 65cm (minha cadeira tem 58).

Como só me enviariam o endereço da residência após quitados o curso e a hospedagem, logo concluí essa etapa. Enviado o endereço, imediatamente recorri ao Google Maps, clicando para ver fotos da rua. Havia quatro degraus na frente da casa: dois no portãozinho de entrada, dois na porta. =(

Encaminhei um e-mail para a dona da casa, explicando detalhadamente minhas necessidades e pedindo que me informasse se a foto do Google indicava a realidade. E ela confirmou que, de fato, havia os degraus mostrados pela imagem. Apesar disso, ela havia de fato hospedado um cadeirante, mas ele, que havia amputado parcialmente os membros inferiores, descia da cadeira de rodas e a transportava para dentro de casa.

Estou contando a história com este nível de detalhamento a fim de alertar, tanto futuros intercambistas cadeirantes, quanto agências e escolas, acerca da importância de que as informações sejam checadas antes de serem repassadas. Uma informação incorreta pode ser sinônimo de transtorno. E se eu tivesse confiado? E se não tivesse insistido nas perguntas? Sim, precisamos ser chatos e insistir: peça fotos, medidas, tudo. Não viaje se não se sentir seguro.

Fiquei aborrecida com a situação, mas não desisti do intercâmbio. Protestei, a escola se desculpou formalmente, e decidimos procurar por outras escolas e até em outras cidades. Contudo, terminada a busca, resolvi ficar em Newcastle mesmo, e na mesma escola, apesar do ocorrido. E optei por um hotel totalmente acessível, apesar do custo muito mais alto. Não queria mais correr riscos.

Este post visa apenas introduzir o assunto, porque são muitos os detalhes. Nos próximos, falarei sobre a escola, da qual gostei muito, ressaltando que ela se superou para compensar a falha com as informações sobre o homestay. Falarei também sobre a cidade, que escolhi também porque tinha tido notícias de que o povo era muito amigável, o que se confirmou. E que cidade charmosa!

 

A Millenium Bridge é um dos cartões postais de Newcastle upon Tyne. Fica sobre o Rio Tyne e gira para os barcos passarem. Mostrarei tudo no próximo post!

A Millenium Bridge é um dos cartões postais de Newcastle upon Tyne. Fica sobre o Rio Tyne e gira para os barcos passarem. Mostrarei tudo no próximo post!

 

A agência

 

Utilizei os serviços da UpGrade Intercâmbio, de Belo Horizonte, por indicação de um colega de trabalho. Ele recorreu a ela também por indicação e já havia feito duas experiências bem-sucedidas. Além da indicação, optei pela agência pelas seguintes razões:

– O atendimento inicial, por telefone, foi atencioso. A Luisa, com quem falei no primeiro telefonema, me ouviu com atenção, demonstrando ter entendido corretamente todas as informações que lhe passei sobre minhas necessidades. Em nenhum momento foi impaciente, nem negligente. Se comprometeu a pesquisar e dar um retorno.

– O local em que a agência se localiza é acessível para cadeirantes, e há um estacionamento pago no prédio. Algumas vezes, fui de cadeira motorizada, porque não é muito longe de minha residência; outras vezes, fui de carro.

Meu atendimento prosseguiu com a consultora Laíse, que é bastante jovem, mas experiente. E, coincidência das coincidências, ela havia utilizado uma cadeira de rodas durante 2 meses, e por isso tinha uma sensibilidade maior para entender minhas demandas.

Durante meses nós trabalhamos para conseguir a cidade, a escola, a acomodação e o voo mais adequados, com total atenção por parte da agência. As meninas jamais foram negligentes e sempre souberam contornar com competência os problemas que surgiram. Também foram honestas ao me passar informações e jamais me pressionaram para comprar ou pagar o que quer que seja, me deixando em liberdade para adquirir passagens aéreas, seguro ou moedas onde eu considerasse melhor.

Estou certa de que existem outras boas agências por aí, aguardando seu telefonema. Para te ajudar a escolher uma boa agência, e te dar mais dicas, entrevistei a Laíse, que, como eu disse, foi a consultora que me assessorou mais diretamente durante o processo.

 

Entrevista | Laíse Avelar

 

Cadeira Voadora | Foi a primeira vez que você atendeu a uma pessoa com deficiência em busca de uma experiência de intercâmbio? Quais foram os principais desafios nessa empreitada? Você imaginou que enfrentaria esses desafios?

Laíse | Sim, foi a primeira vez. No nosso primeiro encontro, trocamos uma ideia inicial e busquei saber seus objetivos e suas necessidades. Naquele momento, o essencial (com qualquer estudante) é saber ouvir. Ali eu vi que você tinha autoconhecimento e maturidade para fazer um intercâmbio cultural. Em seguida, expliquei que não há (ainda!) um intercâmbio elaborado exclusivamente para cadeirantes, mas que isso não seria empecilho.

Desde o início, a atenção aos detalhes de acessibilidade foi redobrada, e era preciso que me informasse cada detalhe da sua autonomia física, para eu informar às escolas.

A partir do momento da sua matrícula, eu sabia que seria muito importante no seu processo a assertividade na comunicação e atenção aos detalhes inerentes a uma estudante cadeirante. E, nesse sentido, foi muito importante para mim que você estivesse ciente e preparada para os problemas que poderiam surgir durante o processo, e que confiasse no meu know how e na minha disposição em superar as dificuldades operacionais.

Outro grande desafio foi encontrar uma instituição que tivesse a mesma disposição. Elevadores e portas largas muitas escolas têm, mas a disposição em  sair do “padrão” e confirmar os vários detalhes que precisávamos no seu processo, e uma acomodação adequada, seria mais difícil. Eu tive que ser mais enérgica com as escolas nesse sentido.

Mas sua colaboração e cabeça aberta foram fundamentais, Laura.

 

Possivelmente, ao ler os textos no blog, outros cadeirantes se sentirão motivados a tentar o intercâmbio. Você os incentivaria? 

Com certeza! Sendo uma apaixonada por viagens e tendo vasta experiência na área, orientar e ajudar estudantes a escolherem a melhor opção de estudo no exterior, assim como também abrir as portas do mundo, sempre foi muito gratificante.  Vivemos em um mundo globalizado; a bagagem de experiências adquiridas no intercâmbio é hoje ferramenta poderosa de desenvolvimento emocional e profissional.

É um investimento na alma! E, mesmo que ainda não haja um intercâmbio voltado para cadeirantes, a adaptação, se feita de forma profissional e segura, é maravilhosa.

 

Poderia dar algumas dicas para que não só o cadeirante, mas qualquer pessoa tenha elementos para escolher uma boa agência de intercâmbio?

Fazer essa escolha hoje está mais difícil, pois existem inúmeras agências. Pesquise algumas opções (3 ou 4); não há necessidade de ir em 10 agências. Mas, sem dúvida, uma agência que seja consolidada é importante.

Agências com mais tempo de mercado possuem parcerias sólidas no exterior e fazem um trabalho mais profissional. Além disso, autonomia, expertise e experiência do próprio consultor de intercâmbio são fundamentais, pois é ele quem será responsável pela parte operacional da viagem. E isso é essencial em processos que saem dos padrões (como o de um cadeirante). Aliás, atendimento personalizado no setor de serviços é um diferencial valioso para qualquer um, mas, nesse caso, mais ainda.

Ademais, buscar referências e indicações de clientes da agência, sempre!

 

LaíseLaíse Avelar tem 28 anos e é formada em Turismo pela PUC Minas.

Sempre gostou muito de viajar, e durante sua graduação fez três intercâmbios, que, segundo ela, foram experiências marcantes que transformaram sua percepção do mundo.

Começou a atuar na área de intercâmbio em 2009, e desde então presta consultoria para diferentes perfis de estudantes e famílias.

 

 

 

Para saber mais:

 

Mais posts sobre meu intercâmbio em Newcastle:

Intercâmbio em cadeira de rodas: 7 razões para escolher Newcastle

Newcastle: onde comer, comprar e encontrar banheiro adaptado

Vale a pena voar pela British Airways? E pela Gol? O que é voo codeshare?

 

Experiências de intercâmbio de outros cadeirantes:

Ana Beatriz Ranieri no jornal O Globo

Ana Beatriz em reportagem na TV

Primeira postagem de Michele Simões sobre seu intercâmbio

 

 

 

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5 Comments

  1. Olá
    Meu nome ê Luciane, tenho um filho de 21 anos, Lucas, que é cadeirantes com necessidades importantes..nao faz transferência da cadeira sozinho e precisa de ajuda para tudo q se refere a banheiro.
    Lucas usa cadeira motor , faz publicidade …
    Ser a q tem chance de intercâmbio??

    • Ei, Luciane! Seja muito bem-vinda!

      A verdade é que somente vcs terão condições de responder a essa pergunta… Vcs precisarão considerar que ele terá de fazer tudo o que faz aqui, com alguns desafios a mais: a barreira da língua, a absorção de uma nova cultura, provavelmente uma mudança na alimentação e por aí vai. Precisarão verificar as condições de hospedagem e de transporte.

      Feito isso, terão condições de concluir se ele estará seguro nesse novo universo.

      Como ele não tem autonomia para as atividades diárias (precisa de auxílio para fazer transferência e utilizar o banheiro), uma pessoa terá de acompanhá-lo ao intercâmbio e precisará permanecer com ele. Mas é assim mesmo que acontece: cada um é cada um. Cada pessoa tem necessidades muito específicas e, para ficar longe de casa e do conhecido, precisará avaliar cuidadosamente aquilo de que vai precisar para se sentir segura e não correr riscos.

      Se precisar de algo mais, fique à vontade para perguntar! Forte abraço!

  2. Pingback: Intercâmbio para pessoas com deficiência: é possível? - guiaderodas

  3. Sou deficiente fisicamente. ando com 2 muletas axilares e tenho 74 anos. Viajo sempre que posso. Sempre quis fazer intercambio mas ainda não tinha encontrado a possibilidade de fazê-lo, e hoje achei essa possibilidade. Meu questionamento é: onde me hospedar proximo da escola em razão do transporte hospedagem/escola, posto que não ando longos percursos e em razão do perigo de piso escorregadio. Dificuldades apenas com degraus (e escadas quando não há corrimão) piso escorregadio e longas distancias. Afinal, duas semanas passam rápido. Cidade preferida Newcastle .
    Periodo preferido: Sem chuva. o resto tiro de letra. Pode me ajudar a realizar esse sonho ? Aguardo retorno para viabilização do intercambio em lingua inglesa.

    • Olá, Rizelda, tudo bem?

      Em Newcastle chove muito… Por isso, não sei se seria uma boa escolha pra vc. As ruas ficam muito escorregadias, assim como o piso das lojas e dos restaurantes. Avalie se vale a pena; tenho impressão de que seria melhor, em seu caso, escolher uma cidade com clima seco.

      Fiquei hospedada em apart-hotel e pegava táxi para ir à escola. Não era longe. O nome dele é Staybridge Suites Newcastle.

      Um grande abraço e sucesso em sua empreitada!

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