Pequena Miss Sunshine

Quem gosta de aproveitar o fim de semana para ver filmes, pode se deliciar com Pequena Miss Sunshine. Para rir, trazer poesia para sua vida, se enternecer. E para viver uma aventura sem sair de casa!

 

Cartaz do filme mostra a tônica da narrativa: correr para chegar e para vencer. (Todas as imagens foram retiradas do Google)

Cartaz do filme mostra a tônica da narrativa: correr para chegar e para vencer.
(Todas as imagens foram retiradas do Google)

 

A dica de filme desta semana é Pequena Miss Sunshine.

Gostei tanto, que de vez em quando assisto novamente para me divertir com a carismática menininha que quer vencer o concurso de miss infantil da Califórnia.

Aparentemente, ela não tem nenhuma condição. Está gordinha, tem um cabelo sem nenhum charme, um andar desengonçado… Mas não importa: ela acha que tem condições de vencer e tem total apoio da mãe.

 

Olive é esta que está no meio. Tão diferente das outras meninas padronizada, não? Tão espontânea...

Olive é a que está no meio. Observe bem. Tão diferente das outras meninas, não? Um ponto fora da curva…

 

A família de Olive é composta do que os norte-americanos denominam “losers”: perdedores, fracassados, cada um a seu modo. A casa é um pandemônio; conflitos constantes, gritos, injúrias.

Quase todo o filme se passa entre a saída da família da pequena cidade de Albuquerque, no Novo México, para chegar até a Califórnia, onde acontecerá o concurso de miss. Em uma Kombi caindo aos pedaços, eles atravessam mais de mil quilômetros, sendo inúmeras vezes confrontados com adversidades e com o que há de mais humano em cada um.

Nas cenas iniciais, conhecemos o Richard, o pai de Olive, um homem que tenta desesperadamente vender seu programa motivacional para atingir o sucesso e que abomina o fracasso. E toda a narrativa trabalha para ressignificar o que é sucesso e fracasso e o que importa de fato na vida.

Por que este filme me parece tão útil para despertar a reflexão das pessoas que têm alguma deficiência?

 

Esta kombi vai fazer você dar boas gargalhadas!

Esta kombi vai fazer você dar boas gargalhadas!

 

 

Humano, demasiado humano

 

Vivemos numa cultura que valoriza o sucesso e considera o erro e os infortúnios algo vergonhoso. Temos vergonha até mesmo de admitir que estamos resfriados, que não fizemos uma boa prova na faculdade ou não obtivemos êxito na entrevista de emprego.

Infelizmente as religiões costumam colaborar para isso, pois muitas enxergam as situações adversas como castigo ou abandono de Deus, e outras têm uma visão muito negativa do que chamam de karma.

Se encarar esse estado de coisas é difícil para o “comum dos mortais”, que dizer quando se trata de uma pessoa com deficiência? Não temos como esconder as pernas atrofiadas, as mãos sem movimentos, a coluna envergada e por aí vai. Alguns até tentam, mas vamos combinar: não têm sido muito bem-sucedidos. Não, não se trata de uma cicatriz, ou de algo que possa ser resolvido com cirurgia plástica. Não há como esconder.

Como os pais vão esconder os olhinhos puxados dos pequenos com síndrome de down? Como a mocinha vai esconder que vazou xixi na linda roupa de festa? Como esconder que alguma coisa não subiu na hora do sexo aguardado com tanta ansiedade?

Sim. Lidamos com isso o tempo todo.

E o filme nos leva à reflexão de que não importa quem somos ou o que façamos, sejamos pessoas com deficiência ou não. Uma hora a máscara cai, a maquiagem borra, o verniz fica arranhado.

Como fica mais leve quando conseguimos admitir que somos quem somos e que há algumas coisas que não se pode mudar. Que podemos lutar para recuperar movimentos, bombar músculos, ser pessoas bem-sucedidas, não fazer xixi na roupa, mas há limite para tudo, por mais que muitos insistam em dizer que não existem limites, ou que limites são para os fracos.

Existem limites sim. E encarar os limites é só para quem é humano.

Se eles poderão ser transpostos, só o tempo dirá.

Pequena Miss Sunshine tem condições de promover um encontro do espectador com seu lado obscuro, aquele que não queremos enxergar. Isso é o que mais gosto no filme.

 

Me faz um favor?

 

Ao lado disso, muitos indivíduos não têm coragem de pedir um favor, pois isso também pode ser considerado algo que diminua a pessoa. Alguns alegam timidez, dizem que não querem incomodar… Mas será essa a verdade? Não será vergonha de admitir a própria insuficiência?

Contudo, o que acontece com as pessoas com deficiência? Temos como viver sem pedir auxílio a outra pessoa? Ainda mais numa sociedade que não é inclusiva?

Mesmo que eu conserve a ilusão de que não preciso de uma casa adaptada (posso alcançar o interruptor lá no alto, imagina…), não preciso de ajuda para pegar algo no chão (mesmo que eu cair quando abaixar, me levanto novamente, imagina…), não preciso de ajuda para mudar a temperatura do chuveiro (posso quebrá-lo com pancadas de cabo de vassoura), a verdade é que precisamos de ajuda o tempo todo.

Mas pedir ajuda também costuma ser algo visto como fracasso. Estou errada?

Sim, é chato demais ter de pedir ajuda o tempo todo. Sim, precisamos de uma cidade mais inclusiva. Mas não, não é disso que falo. Aqui estou tratando de uma dificuldade que atinge muitos, com ou sem deficiência: admitir que precisamos do outro.

Pequena Miss Sunshine também coloca o dedo nessa ferida.

Sem querer contar o final, me arrisco apenas a dizer que tudo dá certo lá na frente.

 

Por que você precisa ver

 

Porque o filme é divertidíssimo. Porque é emocionante. Porque Olive é um encanto, mesmo sendo tão desajeitada – ou será que ela é um encanto justamente por isso?

Para descobrir que todos somos Olive.

E porque, ao final, descobrimos que é bom ser humano. E que não se perde tanto assim por não se fazer parte do rebanho. 😉

Deixa os ombros mais leves.

 

A gente acaba descobrindo que Olive é linda ao modo dela.

A gente acaba descobrindo que Olive é linda ao modo dela.

 

Pequena Miss Sunshine

Data de lançamento 20 de outubro de 2006 (1h 40min)

Direção: Jonathan Dayton, Valerie Faris

Nacionalidade: EUA

 

Ah! Para se deliciar ainda mais com o filme, leia A construção da beleza.

 

Depois me conte quais são as suas impressões a respeito de Olive... Quero muito saber!

Depois me conte quais são as suas impressões a respeito de Olive… Quero muito saber!

 

 

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